sábado, 20 de julho de 2019

Tinha tudo para correr mal (45º Capítulo)

Pois bem, parece que o Tinha Tudo Para Correr Mal, vos está a surpreender.  Algumas pessoas gostaram da ideia de ver um par romântico entre a Carlota e o Dinis, mas confesso que essa era apenas uma das hipóteses que tinha mente e sinceramente não sei o que fazer com estes dois.
"343... Nem acredito que já passaram 343 dias de trabalho desde as nossas ultimas férias!
Confesso que gosto da palavra férias! FÉRIASSSS! Gosto de arrastar o som do S... Parece que se eu o fizer os dias de férias também se vão prolongar, e isso é um negócio que agrada a todos.
Sou arrancada dos meus pensamentos quando sinto a Eduarda abrandar o carro e dar o pisca para estacionar em frente de uma moradia de quatro frentes, tipicamente alentejana, branca e amarela!
- Chegamos! - Grita a Edu só para acordar o Rodrigo que dorme no banco de trás ao meu lado.
Ele não acordou, e neste momento está encostado à porta, a dormir de boca aberta e apesar de não lhe ver bem a cara, quase que aposto que um bocadinho de baba se está a formar no canto da sua boca. 
Lá fora a Ana e o Ivo saem do carro de dois lugares, que o Ivo apenas usa para viagens de trabalho.
Vejo-os a rir, por isso consigo prever que o Rodrigo está mesmo com baba nos cantos da boca. 
O Ivo faz-nos sinal para não fazermos barulho e aproxima-se calmamente da porta do lado do primo. Com um cuidado estudado, atira-se contra a porta fazendo o carro estremecer.
Estamos todos a fitar o Rodrigo quando ele acorda assustado e grita como uma menina.
- Caramba Edu! - Grita ele, todos desatamos a rir, porque obviamente que ele nem reparou que o carro já parou.
- Ei! Não fui eu! - Responde a Edu mostrando a chaves do carro.
Nova onda de gargalhadas quando ele fita o primo do lado de fora. 
- Filho da mãe... - Diz o Rodrigo abrindo a porta e saindo do carro. - Queres matar-me do coração??? 
- Não! - Diz o Ivo tentando controlar as gargalhadas. Obviamente não está a fazer um bom trabalho.
- Mas acredita que isto foi um bom teste. - Diz a Eduarda enquanto contorna o carro. - Porque se não tiveste um ataque agora, é provável que tenhas um já de seguida!
Todos fitamos a Eduarda sem perceber o que ela estava a dizer. Contudo reparamos que ela fita a rua calma que acabamos de percorrer, minutos antes.
Para nossa surpresa, um Volvo surge na curva. Se eu sinto o coração ansioso, imagino como se sentirá o Rodrigo! Será que é mesmo verdade? Será que uma das minhas melhores amigas está de volta? 
Reconhecemos a matricula do carro à medida que ele se aproxima, depois reconhecemos os cabelos ruivos da mulher que segue ao volante e todos soltamos exclamações de alegria. Dou comigo genuinamente feliz ao ver que a Joana está de volta.
Enquanto o carro pára, todos fitamos o Rodrigo, nunca ninguém soube ao certo o que se passou, ninguém fez perguntas, mas por algum motivo todos percebemos que alguma coisa se tinha passado entre eles. 
- Não acredito... - Diz ele coçando a cabeça, despenteado ainda mais o cabelo.
- Pensavam mesmo que iam de férias sem mim? - Diz a Joana saindo do carro.
A Ana é a primeira a superar o choque e a correr para abraçar a amiga. Depois um a um a fomos receber com uma alegria jovial, mas completamente sincera.
- Olá... - Diz-lhe o Rodrigo quando se aproximou depois dos outros todos. - Como estás?
- Estou bem e tu? 
- Também. - Diz ele com um sorriso tão meigo que eu sinto-me tentada a pensar que o Rodrigo que conhecemos foi raptado por aliens e substituído por uma versão humana dos ursinhos carinhosos.
- Bem! - Diz o meu irmão, para acabar com aquele silencio estranho que se gerou. - Estou ansioso para ver a casa! 
- Eu também. - Concorda a Eduarda aproximando do meu irmão.
- Esperem lá! - Digo, tenho que fazer a minha pergunta estúpida do dia, senão eles até se vão esquecer que eu estou aqui. - Edu, tu sabias que a Joana vinha ter connosco? 
Claro que ela sabia, quem mais poderia organizar uma surpresa destas? 
- Claro que ela sabia, caso contrario como é que achas que eu sabia onde vocês estavam? - Diz a Joana rindo.
Calo-me, já chega de estupidez, já desempenhei o meu papel, pelo menos por agora.

Nessa madrugada...

Está um calor insuportável e eu não consigo dormir. Lá fora está um silêncio tão profundo que até assusta.
Decido sair de casa e ir para o jardim. Tem um recanto escondido atrás do antigo poço de água. Ali posso fumar um cigarro e desfrutar desta noite agradável ao ar livre.
Sento-me atrás das pedras ainda quentes. Estiveram 40º esta tarde e elas absorverem o calor, e agora esse mesmo calor está a aconchegar as minhas costas. 
Estou calma e relaxada, o cigarro também ajudou, mas não o suficiente para não ouvir passos atrás de mim. Primeiro fico assustada, será que algum deles me seguiu? 
Não faz sentido, nenhum deles faria isso, por isso fico à escuta. São duas pessoas que se aproximam, uma leve e outra mais pesada. Acreditem ou não no silencio da noite conseguimos distinguir mesmo o mais pequeno barulho se estivermos treinados para isso.
- Precisamos de falar! - A voz da Joana chega até mim, rapidamente adivinho que a outra voz que vai responder vai ser a do Rodrigo.
- Deixaste tudo bem claro quando me abandonaste! - Ataca ele. Fico admirada, sempre pensei que ele ia rastejar atrás dele como um cachorrinho. - Não te tiro a razão em nada, eu fui uma besta na maneira como agi, e mereci a tua agressividade e a tua frieza... Mas não merecia que me abandonasses, não depois de eu descobrir que tinha esta maldita doença, e muito menos depois de descobrir que tinha perdido um filho!
Fico em choque! Um filho? Que doença? Afinal a separação deles não foi um arrufo de namorados, foi algo bem mais denso.
- Eu sei... Fui uma verdadeira cabra! Mas fiquei magoada... Não é justificação válida, mas é a verdade... 
Tenho a sensação que não devia de estar a ouvir nada disto, mas agora não posso simplesmente me levantar dizer olá e afastar-me sem tornar este momento constrangedor. Além disso e o fizer, eles poderão nunca mais ter a oportunidade de dizer um ao outro o que sentem. 
- Não me apaixono facilmente. Tenho dificuldade em acreditar no amor. Aliás nunca acreditei, caso contrário nunca teria sido capaz de ter o trabalho que tive durante 12 anos... Mas apaixonei-me por ti, foi um erro que não consegui evitar, e quando me magoas-te, mesmo sabendo que não foi propositado e que estavas apenas a falar porque estavas magoado, eu não consegui evitar de sentir que... 
A pausa dela, parecem lâminas.  Pequenas lâminas que devem estar a cortar o Rodrigo por dentro.
- Merda!- Diz ela, percebo que está a chorar. - Tive medo! Tenho medo de mim quando estou contigo! É irracional e é de malucos! Mas quando estou contigo não confio em mesma. És o oposto do que poderia esperar para mim, mas eras a pessoa que eu queria! 
- Eu também, mas agora nenhum dos dois, vai conseguir superar o que aconteceu... Não estiveste lá para me apoiar quando eu descobri a minha doença e eu não estava lá quando perdeste o bebé.
- O que é que fazemos agora? 
- Eu amo-te, como nunca amei ninguém, mas apesar de compreender os motivos que te levaram a fazer o que fizeste não consigo confiar em ti.
- Faço minhas, as tuas palavras! - A voz dela é baixa, calma, mas consigo perceber que ainda está a chorar.
Consigo também, ouvir os passos dela a afastarem-se em direção a casa e a porta a fechar.
- Se soubesses que a dor que tenho é proporcional ao amor que sinto por ti, irias ficar chocada e provavelmente odiar-me, porque neste momento detesto-te tanto como te amo!
Diz ele para as estrelas, depois afastou-se em direção à rua, e eu finalmente posso sair do meu esconderijo.
Fito o céu estrelado, e pergunto-me quantas pessoas se amam e odeiam ao mesmo tempo e recordo um texto que li no outro dia da Inspetora:

"O ódio e o amor andam de mãos dadas como dois amantes. Sabemos que errado amar e odiar, mas é verdade, nunca se ama sem odiar, existe sempre algo na pessoa amada que nos vai magoar, e vamos odiá-la por isso, seja porque ela nos magoou, seja por que comeu a última fatia de bolo que tínhamos guardada no frigorífico. Amar é odiar, principalmente quando percebemos que a pessoa não tão perfeita como nós pensamos. A beleza deste ódio é que ele tem o poder de destruir ou unir, as pessoas é que não querem aceitar que podem amar as pessoas que odeiam!"

Gostaram deste capítulo? O que acham que vai acontecer agora?

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4 comentários:

  1. Não estava à espera deste regresso, estou curiosa.

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  2. A Carlota, sinto, vai dar muito que falar ainda. Estou a adorar a sua evolução, porque tem muitas camadas associadas.
    Fazeres regressar a Joana também foi inteligente. E o diálogo entre ela e o Rodrigo era mesmo necessário :)

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