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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

# Capítulo # Linha Desfalecida

Linha Desfalecida - 12º Capítulo

Adoro quando finalmente chega a sexta-feira e eu posso dar assas à imaginação e fazer uma mais um capítulo do "Linha Desfalecida":

"O Hugo acabou por terminar com o silêncio de uma vez por todas, também ele sentia aquele elefante dentro do carro, e queria que ele saísse dali:
- Conseguiste comer alguma coisa, depois do que aconteceu ontem? – perguntou ele cerca de cinco minutos depois.
- Sim, consegui comer cereais ao pequeno-almoço e até agora não tive vómito, nem tonturas nem nada do género…
- Ainda bem. A comida tinha sabor?
- Não muito, mas pelo menos não sabia a palha como nos últimos dias…
- Isso também vai melhorar… basta que tenhas uma alimentação equilibrada, e aos poucos tudo volta ao normal…
- O que é para nós uma alimentação equilibrada? – perguntou a Isabel fitando-o atentamente. Por seu lado, o Hugo não conseguiu deixar de soltar uma gargalhada perante aquela pergunta que era tão simples para uma pessoa normal, mas tão complexa para uma pessoa como eles.
- Tecnicamente depende daquilo que comes habitualmente. – disse ele sem tirar os olhos da estrada. – Se por exemplo fores vegetariana, vais precisar de beber mais sangue, mas se habitualmente a tua alimentação incluir carne e se ela for malpassada vais precisar de menos sangue…
- Então a explicação que me deste sobre a evolução humana passar pelo facto de bebermos sangue para evitarmos o consumo de alimentos não é completamente verdade…
- Não de todo, mas a não ser que optes por uma vida isolada da sociedade, vais ter que manter uma alimentação considerada normal… Como ias explicar aos teus pais que deixaste de almoçar ou jantar? – acrescentou ele fitando-a pelo canto do olho, ela ia falar, mas decidiu calar-se. – Sei o que estás a pensar, e não te posso dizer para não contares aos teus pais, mas pessoalmente acho que quantas menos pessoas souberem melhor…
- Supondo que eu faço algumas refeições de forma normal, quanto sangue preciso beber? – perguntou ela enquanto fitava a paisagem através do vidro do passageiro.
- Uma vez por dia… A quantidade não te posso dizer pelo menos para já, nos primeiros dias é normal que bebas mais, umas depois disso, uma garrafa de 0.75 centilitros deve ser suficiente…
- Uma garrafa por dia??? – perguntou ela surpreendida. – Onde é que vou arranjar essa quantidade de sangue sem dar nas vistas?
- Já te mostro… estamos quase a chegar… - disse ele saindo da estrada. Em alguns minutos Isabel percebeu que estavam num areal junto ao rio, e que eles eram as únicas pessoas por lá. Quando ele estacionou o carro Isabel apressou-se a sair do carro, precisava de ar, precisava de pensar, não sabia como ia lidar com tudo o que se estava a passar a ideia de confiar num desconhecido parecia ser ainda mais estranho.
Ele aproximou-se dela. Queria abraça-la e dizer que ia tudo correr bem, mas será que ia? Ela estava assustada e ele começava a temer que a irmã tivesse razão quando ao facto de ela não aguentar todas as alterações que esta descoberta lhe iria trazer. Mas agora não havia nada a fazer, por isso abriu a mala do carro.
- Chega aqui! – pediu ele.
Isabel aproximou-se e espreitou para a mala do SUV. Ela não sabia o que estava à espera de encontrar, mas o facto de a mala estar arrumada deixou-a surpreendida. Ao canto viu apenas um saco de viagem e uma mala térmica. O Hugo esticou-se e puxou a mala térmica, dentro estavam cerca de 3 garrafas de 0.75, ele deu uma a Isabel, que o fitou surpreendida.
- Julgas que somos animais que andam por ai a cortar pessoas para lhe beber da veia? – perguntou ele surpreendido.
- Acho que não pensei… - confessou a Isabel abrindo a garrafa. – Mas onde é que arranjas isto?
Ele puxou o saco de viagem e abriu-o mostrando o seu conteúdo a Isabel que ficou estarrecida. Dentro estavam várias agulhas, tubos de colheita, pensos rápidos, garrotes entre outro material usado para a colheita de sangue.
- Nós colhemos o nosso próprio sangue… É essa a nossa maior fonte de subsistência, mas claro, o nosso corpo também precisa de repor os valores e por isso, por vezes compramos sangue num talho, ou em vários dependendo da necessidade…
Isabel fitou a sua garrafa antes de beber, ele sorriu e acrescentou – Podes beber à vontade, é meu, fiz a colheita hoje de manhã antes de sair de casa…
- Isso quer dizer que neste momento tens que repor os valores de sangue perdido…
- Posso beber um pouco do meu sangue e já ajuda, contudo não é suficiente… Mas eu depois arranjo com alguém…
- Nós não podemos beber o nosso próprio sangue?
- Podemos mas não é o suficiente para estarmos bem alimentados… - explicou ele, Isabel bebeu um pouco da sua garrafa, e depois fechou-a pousando-a sobre o tejadilho do carro, depois tirou o casaco e esticou o braço ao Hugo.
- Suponho que saibas como se faz certo?
- Não tens que fazer isso…
- Tens cuidado de mim… deixa-me pelo menos retribuir de alguma forma…
Ele assentiu, na verdade sentia-se com fome, mas não lhe passou pela cabeça pedir o sangue de Isabel, não tão cedo, não, agora que ela tinha tanta coisa em que pensar e com que se preocupar, mas ali estava ela, confusa e mesmo assim decidida a retribuir a ajuda dele. A maneira como ela lidava com toda a situação deixava-o fascinado, ela não chorou nem entro em pânico, em vez disso escondeu o medo que sentia e fez perguntas para tentar perceber tudo o que estava a acontecer. Se ele tivesse tido a mesma postura que Isabel estava a ter quando descobriu o que se passava com ele, talvez as coisas tivessem sido mais simples, talvez se ele tivesse dado ouvidos às pessoas que o tentaram ajudar como Isabel o ouvia a ele, as coisas tivessem corrido melhor.
Retirou uma agulha do invólucro e preparou todo o material para começar a colheita.
- Vais sentir uma picada… - disse ele, Isabel apenas acenou e sentiu a agulha na sua veia, depois fitou-o atentamente, alguma coisa no rosto dele tinha mudado. Parecia mais tenso, mais nervoso, como se no seu interior estivesse a lutar contra algo.
- Estás bem? – perguntou ela.
- Sim… - disse ele, percebendo que a sua voz tinha soado mais como um ronco do que como uma frase. – Desculpa, estou um pouco tenso… - respondeu ele afastando o olhar do sangue que saia do tubo. – Vai abrindo e fechando a mão…
- Queres te afastar? Acho que percebi como funciona… Posso fazer isto sozinha… - afirmou a Isabel preparando-se para assumir o controlo.
- Acho melhor… Não te importas mesmo? – questionou o Hugo já se afastando. Isabel acenou e ele afastou-se para junto do rio, deixando-a sozinha com os seus pensamentos."


 

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48 comentários:

  1. Mais um belo capítulo que gostei de ler.
    .
    Cordiais saudações … feliz fim-de-semana
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. Boa tarde Teresa. Obrigado pelo capítulo.

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  3. Momentos a dois
    tensos mas propensos
    que a água é bom chamariz ´. `)

    Bom fim de semana com alegria
    que o Corona está à espreita novamente
    e com fobia. Beijinhos.

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  4. Texto quase a dar arrepios...escrito com muita convicção.
    E se num futuro não muito longínquo o homo sapiens sapiens
    precisar mesmo de mudar de rumo?
    Gostei muito:)
    Beijo
    Olinda

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  5. Que gostei muito de ler mais um capitulo dessa história
    um bom fim de semana
    Beijinhos
    Novo post
    Tem Post Novos Diariamente

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  6. Mais um capítulo deste interessante romance, que aqui deixas.
    Excelente partilha!

    Votos de um excelente fim de semana!
    Beijinhos!

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com

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  7. Gostei da criatividade. Bjs e bom fim de semana.

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  8. Ah the logistics of feeding... :):))

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  9. Nice and interesting story.

    Ann
    https://roomsofinspiration.blogspot.com/

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  10. Gostei de ler mais este novo Capítulo. Esperamos por mais... muito mais.


    Beijo
    SOL da Esteva

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  11. Uma tensão que acho que foi ou está a ser bem introduzida
    😊

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  12. Nossa, é uma mudança de vida, Isabel tem que se acostumar aos poucos...
    Hugo está sendo muito amigo num momento difícil pra ela.

    Beijos nas bochechas!
    😘🌸

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  13. Olá Teresa.
    Passando por aqui, para desejar uma boa semana, com tudo de bom.
    Beijinhos!

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com

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  14. Amei o capítulo
    beijos
    https://www.dearlytay.com.br/

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