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sábado, 21 de dezembro de 2019

# Capítulo # tinha tudo para correr mal

Tinha tudo para correr mal (62º Capítulo)

Como eu vos disse no "resumo da semana", estou a pensar fazer uma paragem aqui no blog para aproveitar o natal em família. Mas claro, não podia ir embora sem deixar mais um capítulo de "Tinha Tudo Para Correr Mal", desta vez, também ele cheio de magia natalícia.
"Por muito que se diga e se escute sobre o tema, nenhum de nós estava preparado para o que encontramos... Todos nós vivemos sem grandes problemas financeiros, por isso a pobreza, apesar de sabermos que ela existe, parece ser uma realidade muito afastada da nossa. Mas está aqui ao nosso lado.
- Não estava preparada para isto. - Confessa a Eduarda olhando para os rostos tristes que nos fitam como se fossemos estranhos.
- Viemos trazer alguma comida... - Diz a Ana mostrando os sacos com as compras.
- Eu tenho fome! - Diz uma voz de mulher vinda de um canto escuro deste prédio em ruínas.
- Já não como à três dias! - Diz um homem que se aproximou de nós, só depois de ele se aproximar é que os restantes parecem reconhecer a nossa presença.
Rostos tristes, roupas rasgadas e sujas. Pensamos que isto não existe mas existe. O cheiro é tudo menos agradável, só tenho vontade de fugir e fazer de conta que esta dura realidade não existe.
Conhecem o conceito de dor no coração? Eu sinto uma faca no peito ao ver, estes rostos jovens e velhos aceitar a comida que oferecemos e a agradecerem de forma genuína. Vejo uma ponta de alegria nestes rostos tristes. Quero ajudar, quero dar a comida que está no saco de compras que estou a segurar, mas estou em choque, não me consigo mexer, apenas quero apenas chorar  porque ignorei esta realidade durante 33 anos.
- Isto é errado! - Segreda-me o Dinis. - Não devíamos fazer este tipo de coisas só porque é natal...
Não consigo falar, tenho um nó na garganta, por isso limito-me a abanar a cabeça em concordância.
Existe um cheiro peculiar, e que provavelmente nunca vou esquecer. Estas pessoas querem apenas alguma dignidade e comida, por isso agradecem sempre que algum de nós lhes oferece uma lata de comida em conserva.
Quando eu pensava que não podia ser pior, sou arrastado pelo choro de uma criança. Todos olhamos em direção do som, e senti o meu sangue gelar só de pensar que uma criança poderia estar ali ao frio, naquelas condições, onde nenhum ser humano deveria estar.
- Não pode ser... - Diz a Joana saindo da minha beira em direção de um homem que estava num dos cantos escuros deste prédio em ruínas, no colo dele um bebé, está a chorar enquanto o homem o tenta embalar.
Sigo a Joana, não por vontade própria, mas porque os meus pés me obrigam a faze-lo.
- Luís? - Pergunta ela.
- Joana? És tu? - Pergunta o homem surpreendido.
- O que é que fazes aqui? O que se passa?
- Ironias da vida! - Responde ele com um sorriso débil.
Em alguns minutos ficamos a conhecer a história do Luís. Ele era um dos antigos clientes da Joana, gestor de uma empresa de sucesso e filho de uma família consideravelmente rica, era uma daquelas pessoas em quem pensamos que uma coisa destas nunca vai acontecer, mas aconteceu. Primeiro a empresa em que ele trabalhava faliu, e quando ele tentou ingressar no negócio da família, percebeu que o pai tinha gasto todo o dinheiro de várias gerações no jogo.
Eis a dura realidade, num dia somos donos de um império, noutro dia somos enterrados pelo império.
- Esse bebé... - Pergunta a Eduarda.
- É da Lili... Ela... Bem, ela só tem 19 anos, mas os pais puseram-na da rua, ela trabalha à noite como prostituta, e eu fico a tomar conta da pequerrucha, e em troca ela compra comida para os três, depois de manhã ela fica com a bebé enquanto eu vou fazer alguns trabalhos para ganhar uns trocos vindos da simpatia das pessoas.
- Isto não pode ser assim. Essa criança não pode estar nestas condições... - Diz a Ana.
- Eu sei, eu já disse isso várias vezes à Lili, mas ela não a quer entregar a um orfanato... Não a quer abandonar como os pais lhe fizeram... - Explica o Luís.
- Acredito que sim, mas esta criança precisa de cuidados médicos, de um lar, de segurança... Como vai ser quando ela ficar doente e a tiverem que levar a um hospital? - Pergunta o Ivo.
Parece que sou o único que não consigo falar.
- Não chegamos ainda a pensar nisso... Podem não acreditar mas quando se vive na rua não fazemos planos para o futuro, cada dia é uma sorte.
- Onde é que está a Lili? - Pergunta a Joana, que conhecendo bem a profissão sabe os riscos que uma miúda de 19 anos corre ao prostituir-se na rua.
- Não sei.
- Como assim não sabes? A miúda tem apenas 19 anos! Está algures na rua ao frio a prostituir-se ou pior... Tens noção dos perigos a que ela está exposta?
- Joana, viver nas ruas não é assim tão simples... Já passaste fome? Frio? Em meio ano já vi dois colegas meus aqui do prédio morrer, um de cancro terminal e outro foi espancado e nunca mais recuperou...
- Deve haver alguma coisa que a gente possa fazer... - Diz o Rodrigo.
- Há! - Diz a Joana procurando algo na carteira, tira de lá um porta-chaves que atira para o Rodrigo. - Tu e a Edu, vão para minha casa com a bebé.
Como que em piloto automático ambos acenam com a cabeça, a Eduarda pega na criança e aproxima-se do Rodrigo como estivesse com medo que o Luís a fosse atacar para lhe tirar o bebé.
- Tu... - Diz a Joana apontando para o Luís. - Vens comigo procurar a Lili.
Os olhos dele acendem-se como duas lanternas. Levanta-se e fita a Joana.
- Vais nos ajudar?
- Alguém tem que o fazer não é?"

Espero que tenham gostado deste capítulo. Este foi talvez dos capítulos mais difíceis de escrever por relatar uma realidade tão dura como o abandono, a pobreza e a prostituição. Confesso também que quando comecei a escrever me deixei levar por aquilo que pensei que as personagens iriam fazer quando deparadas com isto, e que por isso, apesar de achar que esta seria a atitude que a Joana teria, não sei o que vai acontecer daqui para a frente.

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8 comentários:

  1. Este capítulo dá cabo do coração de qualquer um, porque, infelizmente, espelha uma realidade cada vez mais gritante :/

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  2. Estou de acordo com a Andreia e aproveito para desejar à minha amiga um Santo e Feliz Natal 🎄

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    Livros-Autografados

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  3. Parabéns ao exposto
    sentimentos e realidades quotidianas
    que este nosso País
    parece não acordar, prefere sonhar !!!!

    Um belo Natal desejo eu
    também à Cidade onde se respira e dá simpatia
    num sorriso de cada dia
    reparei eu -,`)

    Beijinhos de aqui dos Calhaus-,`

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  4. Muito bem, agora fiquei curiosa com o que irá acontecer de seguida.

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