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domingo, 18 de novembro de 2018

# #ontemesomemoria # #pequenabonecadetrapos

"Não sabia se era uma pessoa de confiar ou não mas não tive outra alternativa."

"While You Stay at home" (enquanto tu ficas em casa) é o mote e o nome do blog da Paula Carvalho, a jovem de 27 anos que pediu uma licença sem vencimento para conhecer o mundo. Durante quatro meses a Paula conheceu o sudeste Asiático completamente sozinha.

Ontem é só Memória: Li na imprensa que a ideia de viajar e partir à descoberta surgiu depois de veres o filme "Comer, Orar e Amar". O que as pessoas devem querer saber é quem é a Paula, e porque é que mesmo inspirada por um filme, fez algo que poucas pessoas têm coragem para fazer?
Paula Carvalho:
Sempre gostei de viajar, e que sonho que era poder viajar em sítios com realidades tão diferentes da nossa... Nunca tinha pensado em fazer algo do género, pois para mim seria sonhar alto demais, até ao dia em que vi o filme, e decerto outros fatores que estavam a acontecer na minha vida pessoal motivaram a que a história me tocasse mais do que noutra altura qualquer da vida. Fui pesquisando nos intervalos do filme ingenuamente mal sabendo que aquele gesto seria o inicio de toda uma pesquisa de meses que me levou a concluir que poderia viajar por meses seguidos. A pesquisa decorria sem eu saber que o iria mesmo fazer, mas depois de tanto trabalho e perceção de que não é impossível, a vontade estava demasiado entranhada para que não fosse pôr em prática todo o trabalho de meses.

Paula passou longos meses a planear a sua viagem, procurou várias dicas e os locais mais baratos, tinha um orçamento estipulado para cada local que pretendia visitar, porém assim que chegou à Índia percebeu que meses de planeamento iam ter que ser adaptados. Logo no primeiro dia gastou quase todo o orçamento que tinha disponível para o país, uma vez que teve mudar de estadia. E esse era apenas um dos momentos menos bons da viagem.

Ontem é só memória: Qual foi a situação mais traumatizante da tua viagem?
Paula Carvalho: Penso que a pior foi mesmo durante uma viagem de comboio na Índia, de Varanasi para Calcutá. Já tinha bilhete mas o meu comboio foi cancelado, e como já sabia que supostamente os comboios na Índia estão sempre cheios, não sabia bem como fazer para me conseguir deslocar nesse mesmo dia para onde queria.
Quando cheguei à Índia a ideia que me venderam era que para comprar bilhetes eram precisos cerca de dois dias de avanço porque está sempre tudo esgotado. Comecei a entrar em pânico pois não poderia esperar tanto tempo já que tinha um avião para a Birmânia em dois dias. Tenho de ir para Calcutá neste dia. Direciono-me ao departamento de ajuda a turistas que não ajudou nada mas ao menos encaminhou-me a um senhor que me ajudou a perceber como devia proceder. Não sabia se era uma pessoa de confiar ou não mas não tive outra alternativa. Tinha de confiar nele e fazer o que me dizia, mas pareceu-me boa pessoa e o meu julgamento estava correto.
Na Índia os comboios têm várias classes, o bilhete geral dá acesso a uma área que tenho em mente ser muito assustadora e foi esse bilhete que comprei. Paguei uns cêntimos por um bilhete de comboio que ia durar horas e horas e o bilhete que tinha comprado 10 vezes mais caro ficou sem efeito pelo que ia ter de comprar outro. O que este senhor me disse é que não podia então comprar o bilhete para a classe que eu queria (aquela com camas para dormir) e teria assim de comprar o bilhete geral e no comboio pedir um upgrade para a tal classe. Todos os bilhetes de comboio têm um lugar assegurado e eu sabia disso. Sabia que não tinha um lugar para mim mas tinha de ir neste comboio e arriscar. A experiência foi assustadora e muito desagradável, não só pela forma como os indianos olhavam para mim, mas também por todo o cenário possível e imaginário que ia pintando na minha cabeça.
Ora, ali estava eu sentada no espaço entre carruagens em cima da minha mochila. Quem já andou de comboio na Índia sabe que este não é sítio para ninguém. É barulhento, aberto e muito desconfortável. Era o sítio onde até os serviçais do comboio tinham um lugar para se sentar e eu ali num canto. Começam a olhar para mim e a rir, como que a fazer chacota, o que não estava a ajudar nada à situação. Vêm ter comigo e perguntam o que estou ali a fazer, mas não falam quase nada de inglês. Vão chamar outras pessoas e dou por mim a ser abordada por umas 10 pessoas diferentes a perguntarem porque estava ali, portanto tive de explicar essas vezes todas que estava à espera do pica do comboio para me fazer upgrade no bilhete e me arranjar um lugar vago. Sabia lá eu quanto tempo isso podia demorar…
Começo a ficar muito assustada pois os olhares não são simpáticos. São quase como de desdém. Começo a pensar: e se mandam borda fora pois não paguei para estar naquela carruagem? Que vou eu fazer numa estação indiana sozinha a meio da noite? Foi o pensar em todas as coisas más que me podiam acontecer que me deixou mesmo muito nervosa.
Até que vem mais um senhor indiano perguntar-me o que estava a fazer ali sentada e, depois de mais uma explicação, diz-me para o seguir. Nem penso, sigo-o. Ele leva-me até ao sítio onde a sua família estava e diz-me para me sentar lá com eles. Nesse momento nem sei explicar como consegui não verter lágrimas. Era um misto de sensações muito grande. Sentia-me mal por estar a rogar pragas a todos os indianos e agora vem este senhor que me ajuda e a sua família é tão simpática comigo. As crianças até me ofereceram comida. Senti alívio, muito alívio por sentir que não estava sozinha e que tinha ali alguém para me apoiar com um gesto tão simples como aquele. Falei com eles em inglês pois eram fluentes, o que também me acalmou. Sentar-me naqueles centímetros de banco naquele momento foi a melhor coisa do mundo. Fiquei com eles por um bom tempo pois o pica do comboio nunca mais aparecia e já lá iam umas horas. Na verdade, ele nunca apareceu. Se não tivesse sido esta família não sei o que teria sido feito de mim…
Eles pediram ao serviçal que me havia estado a mandar olhares de ódio para me encontrar um lugar e ele lá o fez. Agradeci-lhes muito e fui para um sítio onde podia finalmente descansar e estar confortável.
Ao chegar a Calcutá, como o pica não tinha aparecido e eu não tinha feito o upgrade do bilhete, o tal serviçal de sempre vem fazer a cobrança. Até aí tudo bem até que ele me diz o preço do bilhete. Sabia bem que esse não era o preço justo e argumentei com ele. Até lhe mostrei um print screen que tinha tirado da net com o valor do bilhete. O que mais me irrita é que todos os outros indianos à volta estavam a ver que ele me estava a cobrar bem mais, mas ninguém teve a decência de dizer nada. Discuti com ele por uns minutos até que interiorizei que aquilo não me levaria a lado nenhum e lá tive de pagar. Num acesso iluminado qualquer, lembro-me de lhe pedir o recibo. Dado isto, ele foi falar com um outro senhor indiano que vem com um caderno de recibos e me dá metade do dinheiro para trás, afirmando que eu tinha pago a mais. Concluo que se não tivesse pedido o recibo, o empregado tinha ficado com o dinheiro todo para ele. Mas, ao menos, esta pessoa honesta não o permitiu.
Foi mesmo a situação mais stressante da viagem.

Atualmente a Paula prepara-se para abraçar um novo desafio, percorrer Myanmar duma bicicleta dobrável.

Ontem é só Memória: Quais são os teus maiores receios e expectativas, relativamente a este novo desafio?
Paula Carvalho:
Sei que não vai ser fácil andar sempre com a bicicleta, mesmo sendo ela dobrável ainda é um objeto grande de carregar. Só tenho receio que ela me falhe com alguns problemas que possa dar. De resto estou tranquila pois como já lá estive, já sei como é o país. Espero passar momentos tão bons ou melhores dos que já lá vivi anteriormente, e que se deram em dias onde a bicicleta esteve presente.

A bicicleta dobrável surgiu de uma parceria com a Ympek, e tem cerca de 153 cm largura e 102 cm altura, porém dobrada as suas medidas reduzem-se a 90 cm largura e 65 altura. E apesar de mesmo assim ainda não ser fácil de transportar, vai ser a companheira de viagem da Paula pelo Myanmar.

Ontem é só Memória: Já referiste várias vezes que um dos objetivos principais da tua viagem é conhecer os os Bayingyi, mas de certeza que tens uma série de coisas que queres ver, conhecer e aprender, fala-nos um pouco sobre isso.
Paula Carvalho:
Sim, gostava de ter contacto com estas pessoas que descendem dos nossos antepassados, mas também tenho muitas outras coisas que quero ver e experienciar. Desde andar de bicicleta, de comboio, que são coisas que te permitem ver de forma mais genuína como é a vida dos Birmaneses, até templos de beleza inquestionável. O pôr-do-sol e o nascer do sol com balões de ar quente até perder de vista entre templos de outros séculos. No entanto existe um sítio que tenho mais vontade de conhecer do que os outros todos: Mrauk-U. Digamos que este sítio tem pouquíssimos turismo e templos ancestrais que me vão invocar para outra era. É disto que gosto mais, locais genuínos.

Depois de conhecer as aventuras da Paula pelo Sudeste Asiático, é difícil esquecer, e desde que regressou que a Paula percebeu que esta sua aventura se tornou menos anónima do que aquilo que ela pensava inicialmente.

Ontem é só Memória: Partiste para a tua primeira viagem como uma turista anónima, mas quando regressaste muitas coisas foi dita sobre ti e tua viagem, este reconhecimento mudou a tua vida?
Ontem é só Memória:
Se mudou foi na perspetiva de conseguir concretizar este projeto devido à projeção que advém da primeira viagem. De resto continuo a ser uma turista muito anónima.

Ontem é só Memória: Tendo em conta que estamos a viagens com uma duração relativamente longa, não achas que seria interessante para ti teres uma companhia, ou simplesmente não sentes falta de ter uma pessoa ao teu lado durante a aventura?
Paula Carvalho: Antes de ir pensei que ter companhia seria muito melhor, mas depois, quando voltei, fiquei muito feliz por ter ido sozinha e se tivesse de fazer tudo outra vez ia sozinha novamente. É óbvio que há momentos em que sentimos falta de alguém a nosso lado, pois a felicidade é melhor quando partilhada, no entanto também me lembro de vários momentos em que queria estar sozinha e não conseguia. Existem tantos outros viajantes a solo, que para mim, ir sozinha acabou por não ser tão solitário quanto se possa pensar.

Ontem é só Memória: O que é mais difícil, ir ou regressar?
Paula Carvalho: Regressar! Sem dúvida.

De certeza que a aventura da Paula já inspirou muitas pessoas a fazerem o mesmo, mas tal como no inicio Paula ouviu coisas assustadoras e várias opiniões que lhe diziam que a ideia era louca, é normal que existam receios nos novos viajantes.

Ontem é só Memória: Que conselhos dás para quem está a pensar seguir os teus passos?
Paula Carvalho: Primeiro gostava de dizer a quem tem medo de ir por estar sozinho, não o tenha. Viajantes a solo conseguem conhecer ainda mais pessoas e estão dispostos a essa abertura até mais do que o normal. Ter medo de ir sozinha para a Índia é normal, sendo mulher, mas também não é um problema, tal como referi acima.
Aconselho a não preparar tudo em demasia, go with the flow é o melhor que podemos fazer numa aventura destas. Conheço vários viajantes que mudaram rotas por terem conhecido outras pessoas fantásticas e juntos decidiram por novos planos.
Estar aberto à diferença e aceitar os outros. Analisar bem o ambiente em redor e adaptar-se a essa realidade sem preconceitos. Meias rotas e andar com a mesma roupa dias seguidos não vão fazer de ti um alvo de chacota. Os viajantes querem é viver com alegria cada momento sem preocupações com coisas superficiais.
Levar só o necessário, em todos os sítios existem serviços de lavandaria, portanto levar o armário às costas não faz sentido, até porque tudo o que se leva terá de ser carregado às costas debaixo de temperaturas bem altas.
Por fim, estar atento e não se envolver em situações complicadas, e tudo vai correr bem!

Quanto ao futuro a Paula afirma que "gostava que se abrissem portas para continuar com este conceito da bicicleta, se isso não acontecer, irei voltar ao Vietnam e ficarei lá por uns tempos a ajudar crianças com a prática de inglês." Por cá vamos esperar e ver o que acontece.

Se ficaram contagiados e curiosos saibam que podem acompanhar tudo através do Instagram e do blog da Paula.

27 comentários:

  1. Oh não conhecia, mas adorei conhecer um pouco mais
    Beijinhos
    Novo post //Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  2. A Paula é mesmo corajosa e aventureira! Tenho que ir espreitar o blogue dela! :P
    beijinhos

    www.amarcadamarta.pt

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  3. Gostei bastante :))

    Bjos
    Votos de um óptimo Domingo.

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  4. Great post dear! Have a wonderful day!
    xoxo

    Vildana from Living Like V

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  5. Que conversa inspiradora! Adorava ter a coragem da Paula *-*

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  6. Grande aventura por países tão longínquos!
    Uma excelente entrevista.
    Bjs

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  7. Preciso é ter, mesmo, coragem,
    como fez a Paula, fantástico
    sozinha, ela, uma longa viagem
    percorreu o Sudoeste Asiático!

    Boa noite e bons sonhos.

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  8. Eu admiro essa coragem, adorava mesmo ter essa coragem pois adoro viajar e não viajo para esses sítios mais rocambolescos por medo.
    O livro Comer, Orar, Amar é um dos meus livros preferidos, foi o um livro muito importante na minha vida, que me ajudou de certa maneira e me tornou num verdadeiro e voraz leitor.
    Também gostei bastante do filme. =)

    MRS. MARGOT

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  9. Não sou aventureira a esse ponto e se fosse, de todo iria à India, embora a Paula até tenha gostado, mas a mim é um país que nâo me fascina. Gostos né? ;)
    Parabéns à Paula e que consiga concretizar mais viagens.
    Bjxxxx

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  10. Obrigada pela partilha,adorei! Que coragem de ir sozinha à descoberta, parabéns à Paula!

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  11. Gostei de conhecer ;)
    Boa semana*
    Beijinhos :)
    https://matildeferreira.co.uk/

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  12. Gostei de ler. Achei a Paula uma mulher fantástica, não só pelo espírito aventureiro, mas pelas ideias que foi deixando ao longo da entrevista. Parabéns para as duas, foram uns minutos muito agradáveis que me proporcionaram.
    Abraço e uma boa semana

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  13. Uma história verdadeiramente inspiradora... mas de facto, acho que a Paula arriscou demais, pela Índia...
    Mas achei admirável, a sua coragem, e espírito de aventura!
    Adorei a entrevista! Beijinhos
    Ana

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